O setor petroquímico terá um ano difícil pela frente. A queda de preços do petróleo e a desvalorização do real – que poderiam ajudar a conter a importação de resinas – vieram acompanhadas da redução da demanda mundial, em função da crise e do início da operação de plantas no Oriente Médio. Tudo isso reforça a atenção para o setor, que deverá experimentar alívio apenas em 2012, segundo especialistas ouvidos pela Agência Leia. O diretor da consultoria Maxiquim, Otávio Carvalho, lembra que o setor usufruiu até setembro de 2008 de um crescimento da demanda na ordem de 9,5%, trabalhando com margens apertadas, dado o alto preço do petróleo, que tem correlação direta com o nafta. A partir do quarto trimestre, a queda da commodity, que poderia beneficiar o setor, veio acompanhada da contração da demanda. “A demanda por resina caiu de forma tão acentuada que a média de 9,5% de expansão até setembro veio para 3% se considerarmos os 12 meses de 2008″, afirma Carvalho. Para ele, menos instabilidade para o setor dependerá de uma estabilização do preço do petróleo. Ele calcula um teto de US$ 50 para o produto. “Será um ano com o preço das matérias-primas mais baixo. A dúvida é qual o nível de aquecimento da economia brasileira necessário para absorver a produção e competir com as importações”, diz. Carvalho acredita que com um crescimento do PIB brasileiro entre 2% e 3%, o setor petroquímico não amargará encolhimento nas vendas. O petróleo e a nafta em níveis bem abaixo da média de 2008 e um crescimento da demanda garantirão, segundo Carvalho, a recuperação das margens operacionais do segmento. O que pode atrapalhar esse cenário é a produção das novas plantas que entraram em operação no Oriente Médio, no ano passado. Fato positivo é a manutenção dos investimentos programados para 2009 e 2010. Carvalho cita a entrada em operação, ainda no primeiro trimestre deste ano, de uma nova fábrica da Quattor, que terá sua produção de eteno ampliada de 470 mil para 700 mil toneladas por ano, além da inauguração de uma nova planta de polipropileno, com capacidade de 200 mil toneladas. Há ainda a inauguração de uma planta de propeno da Refinaria do Planalto Paulista (Replan), que abastecerá a fábrica de polipropileno da Braskem. Além disso, há investimentos da Oxiteno na ampliação de suas plantas de Camaçari (BA) e Mauá (SP). “Acredito que a partir de 2012 e 2013 já deve ter sido revertida a queda da demanda mundial, além dos preços deprimidos. Há uma perspectiva positiva que colabora para que novas plantas entrem em operação”, diz o diretor da consultoria Maxiquim, Otávio Carvalho. Essa perspectiva positiva, apesar da crise, é o que estaria levando a Braskem, segundo ele, a retomar as discussões com o governo boliviano para a instalação de um pólo gás-químico, com investimento de US$ 1,5 bilhão. “A crise acaba se tornando um bom momento para a compra de equipamentos a preços mais baixos. Até agora, nenhum projeto programado foi cancelado, o que já é um bom sinal nesta conjuntura”, diz. O analista de petróleo da Corretora Ágora, Luís Otávio Broad, tem dados menos otimistas. Especificamente para a Braskem, a projeção é que a empresa tenha concluído 2008 com investimentos de R$ 1,3 bilhão. Para 2009, Broad lembra que já houve redução do montante, que deverá ficar em torno de R$ 1 bilhão. A Ágora projeta para a ação PNB da Braskem (BRKM5) um preço-alvo de R$ 11,60, o que daria um upside de 94,63%, ajustado com base no fechamento de ontem, quando o preço do papel cedeu 3,40%, cotado a R$ 5,96. A corretora recomenda manutenção do papel. “No curto prazo, o que estamos vendo é uma desaceleração da demanda e a entrada em operação de novas plantas no Exterior. Isso trará um ciclo de baixa para o setor em termos de rentabilidade. As margens estão baixas e tendem a ficar pressionadas”, afirma Luís Otávio Broad. Por outro lado, pondera o analista, o dólar valorizado evita o aumento das importações de resinas. Um analista do setor de petróleo que pediu para não ser identificado também faz uma análise pessimista. “A demanda será fraca pelo menos neste primeiro semestre. Será importante observar o Plano de Investimentos 2009-2013 da Petrobras, que deve ser divulgado na segunda-feira”, diz. Isso porque, além de refinarias próprias, a estatal possui participação na Braskem e na Quattor e pode indicar os rumos do setor. No relatório “Perspectivas e Estratégias 2009″, a corretora Banco Fator estima um crescimento da demanda interna de polietileno e de polipropileno de 2%. A entrada em operação das novas plantas da Quattor poderiam enfraquecer as negociações de preços das indústrias petroquímicas. A corretora aposta ainda em margens operacionais sob forte pressão ao longo deste ano. Por outro lado, a alta do dólar favorece a produção nacional. A Fator estima, para dezembro deste ano, um preço-alvo de R$ 6,87 para Braskem (valorização de até 15,27%, ajustado pelo fechamento de ontem), com recomendação de manutenção. Para a Unipar, a classificação do papel da empresa (UNIP6) é de “não atraente”, com preço-alvo em R$ 0,70 em dezembro (upside de 4,48%, ajustado pelo fechamento de ontem, quando as ações fecharam o dia em queda de 4,28%, cotadas a R$ 0,67). Lucas Brendler, analista da Geração Futuro Banco de Investimentos, acredita que as resinas termoplásticas sofrerão, ainda em 2009, baixas de preço, adequando-se ao mercado internacional. Lá fora, as quedas estão, segundo ele, entre 40% e 60%. Entretanto, Brendler não aposta em decréscimo das vendas. “A indústria petroquímica passa por um cenário bastante desafiador aliado a um ambiente de crise. Esse cenário deverá permanecer até 2011, com a tendência de as empresas perderem margens operacionais”, diz Brendler. Apesar de as ações do setor estarem baratas, ele não recomenda compra. “Somente a recuperação dos preços das resinas e da demanda podem tornar o setor atrativo. Isso talvez só ocorra em 2012″, prevê. Relatório do Banco Espírito Santo de Investimentos aponta que o preço da nafta não acompanhou o recuo do petróleo. Pelo contrário, no mercado europeu houve uma alta inesperada de 27,2%, para 364 euros a tonelada. Já as resinas tiveram comportamentos díspares nos vários mercados. Apesar da alta da nafta, o analista de petróleo da corretora Planner, Rodney Melhados, não se anima. Para ele, 2009 será um ano difícil para as petroquímicas, com perspectivas de melhoras apenas a partir de 2010. Ao contrário dos outros analistas, Rodney Melhados acredita numa retração das vendas de resina entre 5% e 7% neste ano. “Não será surpresa verificarmos prejuízos nos balanços trimestrais dessas empresas”, diz. A Planner está revendo o preço-alvo de Braskem e Unipar. Para a primeira, a recomendação é de venda. Para a segunda, é de manutenção. “Os papéis vão custar a reagir e os investimentos serão enxugados. O pólo gás-químico na Bolívia, por exemplo, terá de ser postergado. Será um ano de sérios problemas para o setor”, alerta.