Com o crédito ao produtor ainda travado e o clima ruim em regiões importantes do país, a safra brasileira de grãos deverá encolher algo em torno de 5% em 2009. Estimativas divulgadas ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) são pessimistas. Ambas apontam para um ano ruim no campo, com produção e produtividade em marcha lenta. O baixo rendimento nas lavouras tende a influenciar o comportamento dos preços ao consumidor, impulsionando oscilações de determinados itens nos próximos meses.
A colheita total estimada pela Conab é de 137 milhões de toneladas — 4,9% inferior à obtida na safra passada (144,1 milhões de toneladas). Já para o IBGE, o saldo no ano atingirá 137,3 milhões de toneladas — 5,9% menor que a do ano passado (145,8 milhões de toneladas). Tanto em uma pesquisa como na outra há um discreto avanço da área plantada que oscila entre 0,2% e 0,8%, alcançando a casa dos 47 milhões de hectares. Desde 2007, os dois órgãos tentam aproximar ao máximo as metodologias adotadas para calcular a safra.
O recuo na produção atinge em cheio o milho e a soja, duas das principais culturas plantadas no país. No caso da soja, estrela da balança comercial brasileira, o volume previsto oficialmente está em 58 milhões de toneladas — menor do que o registrado na safra anterior. Além da queda na quantidade, o produto despenca mês a mês no mercado internacional por causa da crise financeira que se alastra pelo mundo que contaminou quase todas as commodities agrícolas. Arroz, trigo e feijão, porém, deverão chegar ao fim do ano agrícola com colheitas mais robustas do que as observadas em 2008, conforme a Conab e o IBGE.
Apesar do cenário adverso, o governo garante que não há riscos de desabastecimento. Embora as previsões sejam cada vez mais sombrias, o país tem estoques suficientes para atender a demanda interna. O que não está descartado, no entanto, é a flutuação de preços acima do normal, sobretudo, de itens considerados sensíveis ao clima e ao processo de comercialização. Por causa do cenário externo e da falta de chuvas no Sul, derivados de milho e soja, por exemplo, tendem a subir e a baixar de preço sem que o consumidor entenda o porquê.
Na Região Centro-Oeste, os produtores enfrentam algumas das piores dificuldades. Com redução de área plantada em celeiros como Mato Grosso e Goiás, as expectativas para o setor não são animadoras. Os produtores de soja e milho reclamam da falta de dinheiro para financiar a próxima safra e cobram do governo federal um pacote de medidas emergenciais capaz de amenizar o endividamento e a escalada dos custos de produção. Os ministérios da área econômica resistem a propor soluções, ainda que temporárias, para resolver os problemas enfrentados pelos agricultores.
PIB
E o que já está ruim pode ficar ainda pior. De acordo com avaliação da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), os tempos de bonança no campo ficaram definitivamente para trás. Em conjunto com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP), a entidade — que é a maior representante do produtor rural — divulgou ontem que o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio caiu 0,88% em outubro depois de operar por 27 meses no azul. O dado é considerado um alerta.
A presidente da CNA, senadora Kátia Abreu (DEM-TO), disse que o tombo na safra 2009 deverá ficar não em 5%, mas em 10%. De acordo com ela, a margem de lucro do agricultor está “no fio da navalha” e o crédito, simplesmente, emperrado. “Precisamos de prazo, juros mais baixos e políticas de garantia de preços”, afirmou. Com o agravamento da crise mundial, os ruralistas aumentaram a pressão sobre os ministérios da Agricultura e da Fazenda para que a União reveja algumas das ferramentas de renegociação de dívidas. Há, inclusive, um grupo de trabalho formado por representantes do governo e da iniciativa privada discutindo o assunto.
Em valores, o PIB do agronegócio registrado até outubro de 2008 é de R$ 658 bilhões — R$ 100 bilhões a mais do que o valor total apurado em 2008. Apesar da expectativa de crescimento frente ao ano passado, o setor não crê em um bom ano. “Em 2009, as exportações vão sofrer bastante. Acreditamos que haverá uma queda de pelo menos 23% das vendas externas de produtos agrícolas”, completou Kátia Abreu.