Crise financeira atinge diretamente os grãos

Quem diria que a falência de um banco de Wall Street (coração financeiro dos EUA, e do mundo também) diminuiria o preço da saca de milho de um produtor do Brasil. Mas foi exatamente o que aconteceu, infoma a Scot Consultoria.

“Não, as variáveis do mercado ainda não foram alteradas: exportações permanecem aquecidas nos portos dos Estados Unidos, estoques finais das principais commodities agrícolas mais ajustados do que na época do recorde de preços históricos, mas a demanda, bom, essa ainda não se sabe qual será o impacto, e essa foi exatamente a variável que deixou em dúvida os investidores”, destacam os analistas.

A questão da demanda está intrinsecamente ligada ao crédito, que por sua vez está intrinsecamente ligado ao crescimento econômico, especialmente dos países emergentes. “Uma diminuição de capital disponível no mercado internacional diminui a possibilidade de investimentos, que por sua vez geram menos empregos, que por sua vez não dão chance para um maior consumo, e assim por diante”, comentam.

“Resumindo, o grande motivo para a demanda mundial por alimentos tão aquecida foi o crescimento econômico, impulsionado pelo crédito fácil de agentes financiadores internacionais (entenda-se também os principais bancos de Wall Street). Mais dinheiro na economia, mais comida na mesa. Agora que a fonte secou, investidores em dúvidas sobre os desdobramentos da crise, liquidam suas posições e esperam uma nova tendência de mercado ser definida”, alertam.

Há quem diga que países como Brasil e Rússia estão bem protegidos da crise e que pouco sentirão seus efeitos, e há quem diga que o BRIC (principais países emergentes formados pelo Brasil, Rússia, Índia e China) serão os novos “pilares” do aquecimento global.

“Até agora grãos (como a soja e o milho) já sofreram desvalorização de mais de 30% na Bolsa de Chicago (CBOT), mas é importante ressaltar que ainda se situam acima de média histórica no mercado internacional, e o aumento de 20% na cotação do dólar nas últimas duas semanas sustenta o preço no mercado interno. Ao menos, por enquanto, a crise chegou de forma “amenizada” aos produtores brasileiros”, concluem

Queda nas vendas de fertilizantes

As entregas de fertilizantes sempre crescem em agosto. Neste ano, caíram de 2,45 milhões em julho para 2,08 milhões no mês passado, segundo a Anda. Houve antecipação de compras, mas os produtores podem, também, estar pisando no freio devido aos preços

Renegociação dívida agrícola sofre revés

O governo rejeitou projeto aprovado pelo Congresso ao vetar na quinta-feira a troca do indexador dos débitos rurais renegociados e incluídos na Dívida Ativa da União. A Lei nº 11.775, publicada no Diário Oficial, manteve os encargos originais fixados pela legislação em 2001. Assim, os produtores rurais terão que pagar taxa básica de juros (Selic) acrescida de 1% na repactuação das dívidas com os bancos estimadas em R$ 7,1 bilhões.
A proposta aprovada pelo Congresso em agosto previa a troca da Selic, hoje em 13,75% ao ano, pela Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), fixada em 6,25% ao ano. O veto foi motivado, segundo mensagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Congresso, em nome do “interesse público” porque seria um “estímulo à inadimplência” e “uma penalização aos mutuários adimplentes”. Os ministérios da Agricultura e da Fazenda haviam recomendado o veto ao presidente. A alteração, segundo o texto, poderia levar os produtores com débitos inscritos na Dívida Ativa a pagar menos do que os produtores que quitaram seus compromissos, sem atrasos, desde 2001.
“Essa modificação representa um estímulo à inadimplência e uma penalização aos mutuários adimplentes, contrariando um dos princípios básicos da renegociação das dívidas rurais (…) que era de não conceder aos mutuários inadimplentes o mesmo tratamento aplicado aos mutuários adimplentes”, diz o texto com as razões do veto.
Mesmo com o “recesso branco” no Congresso em razão das eleições municipais, a bancada ruralista prepara o contra-ataque ao veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Um decreto legislativo, que tem poder de reverter decisões do Executivo, tentará tornar ilegal a transformação de dívidas rurais em débitos fiscais com a União decidida em 2001.
“Vamos trabalhar nos vícios e na ilegalidade de transformar uma dívida rural em fiscal”, afirma o deputado Valdir Colatto (PMDB-SC), presidente da Frente Parlamentar da Agricultura. O decreto legislativo já foi aprovado nas comissões da Agricultura e de Constituição e Justiça. Agora, o próximo passo será a votação do texto no plenário da Câmara.
Na tentativa de amenizar os efeitos políticos negativos do veto, o Ministério da Fazenda afirma que o novo indexador não significaria alterações para os produtores. “Essa fórmula de Selic mais 1% é referente ao mês de pagamento”, defende o secretário-adjunto de Política Econômica, Gilson Bittencourt. “Ou seja, o produtor vai pagar a Selic até o vencimento do contrato. No mês da quitação, a Selic é suspensa e o produtor paga apenas os 1%. Então, não tem carga extra”. A nova lei confirma o pacote de renegociação das dívidas de R$ 75 bilhões anunciado pelo governo em junho deste ano

EUA preparam “limpeza” no mercado

Medidas que serão enviadas ao Congresso podem incluir compra de papéis podres que implodiram mercados e restrição à especulação. Rumores sobre plano, que pode custar centenas de bilhões de dólares, dão fôlego ao mercado, e Bolsa de NY sobe 3,86%.

A administração Bush prepara uma grande intervenção nas finanças do país que pode incluir a compra pelo governo de papéis podres que implodiram os mercados financeiros nos últimos dias.
O secretário do Tesouro, Henry Paulson, e o presidente do Federal Reserve (o Fed, BC dos EUA), Ben Bernanke, reuniram-se com líderes políticos ontem à noite para discutir as medidas, que devem ir em dias à aprovação do Congresso, de maioria democrata, e a poucas semanas das eleições presidenciais.
Rumores sobre o pacote, que pode custar centenas de bilhões de dólares, deram algum fôlego aos mercados. A Bolsa de Valores de Nova York subiu 3,86%, a maior alta desde outubro de 2002. A Bovespa avançou 5,48% (leia texto ao lado).
A medida de maior alcance seria a criação de uma nova entidade similar à Resolution Trust Corporation, criada em 1989, no auge da crise financeira da época e fundamental para sua resolução. A criação de algo desse tipo vem sendo estudada há semanas pelo governo do republicano George W. Bush, que hesita em apresentar a medida ao Congresso, controlado pela oposição democrata, caso não tenha garantias de aprovação.
A negociação foi confirmada ontem após reunião no Capitólio de Paulson e Bernanke com a presidente do Congresso, Nancy Pelosi, e outros congressistas. Pessoas que acompanham as conversas dizem que pode ser a maior reformulação do sistema financeiro americano desde os anos 1930.
A dimensão do pacote revela a preocupação do governo com a intensidade e abrangência crescentes da crise, que pode corroer ainda mais a confiança no sistema.
Na entrevista que se seguiu ao encontro, no entanto, não se falou de pontos específicos do plano. “Nós estamos trabalhando num método rápido para lidar com o risco sistêmico e as tensões de nossos mercados de capitais”, desconversou Paulson. “Falamos sobre uma abordagem abrangente que irá requerer uma legislação para lidar com ativos no balanço de instituições financeiras.”
Harry Reid, líder da maioria no Senado, disse que a proposta deve ser apresentada para votação “em questão de horas, não dias”. Em carta a Bush, Pelosi escreveu que o Congresso estava pronto para uma votação bipartidária e poderia até adiar seu recesso eleitoral, previsto para o dia 26. O democrata Charles Schumer, do comitê de bancos do Senado, confirmou que o governo Bush trabalhava com a possibilidade de assumir os papéis podres, entre outras medidas.
“O Fed e o Tesouro estão percebendo que precisamos de uma solução mais ampla”, disse. Para ele, a nova entidade deveria ir além de assumir os empréstimos ruins de empresas, mas também modificar empréstimos hipotecários, como maneira de aliviar mutuários endividados, que foram a origem de toda a crise atual, medida de grande apelo em ano eleitoral.
Além disso, três atores importantes do cenário financeiro mundial anunciaram medidas antiespeculação. Em Nova York, o procurador-geral, Andrew Cuomo, lançou investigação ampla visando pessoas que estivessem realizando vendas a descoberto, movimento que permite ganho com a quebra de empresas. Na Califórnia, o Calpers, maior fundo de pensão dos EUA, com capital de US$ 260 bilhões, decidiu conter especulação com suas ações do Goldman Sachs e do Morgan Stanley.
Já no Reino Unido, as autoridades baixaram norma que proíbe ações desse tipo com papéis de companhias financeiras até janeiro de 2009. Ontem, ainda, o Fed anunciou que injetará US$ 180 bilhões nos principais mercados financeiros do mundo, via Banco Central Europeu e BCs da Inglaterra, do Japão, da Suíça e do Canadá.
A intenção era conter o pânico instalado na véspera, quando o mercado de crédito ficou congelado e as Bolsas despencaram. O resultado foi uma reação positiva das Bolsas. O Dow Jones disparou 567 pontos e fechou em alta de 410,03 pontos.
A alta teria sido alavancada principalmente pela possibilidade de a nova agência sair do papel, segundo alguns analistas. “Mercados recessivos são muito sensíveis a notícias”, disse Scott Fullman, do WJB Capital Group. “E, numa escala de 1 a 10, essa chega aos 13.” Ainda assim, a volatilidade permaneceu, com a Bolsa nova-iorquina oscilando até 500 pontos. “Estamos vendo uma grande quantidade de nervosismo, e isso está levando à volatilidade”, disse Anthony Conroy, do BNY ConvergEx Group.
Não foi por outro motivo a aparição inesperada de Bush. O presidente passou a tarde reunido com seus principais assessores econômicos, após cancelar uma viagem e fazer um pronunciamento não-programado pela manhã. Por dois minutos, procurou acalmar os ânimos. “O povo americano pode ficar seguro de que nós vamos continuar a agir para fortalecer e estabilizar nossos mercados financeiros e melhorar a confiança dos investidores”

Exportadores fazem sugestões para estimular vendas

A possibilidade de o país vir a registrar déficit comercial em 2009 em decorrência da crise financeira nos Estados Unidos, com reflexos no mundo, fez a Abracex (Associação Brasileira de Comércio Exterior) preparar uma lista de sugestões para o governo com o objetivo de estimular as exportações.
No documento que será enviado até a próxima segunda-feira aos ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento, a Abracex vai pedir o fim das alíquotas para importação de equipamentos de última geração e a redução da carga tributária incidente sobre a produção e a mão-de-obra.
“O governo precisa preparar para já um pacote de medidas para incentivar as exportações, inclusive de produtos com maior valor agregado. O país não pode correr o risco de voltar a ter déficit comercial e perder reservas”, afirma Roberto Segatto, presidente da Abracex.
O Brasil acumula superávit na sua balança comercial desde 2001. Em 2007, esse número foi de US$ 40 bilhões. A previsão da AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil) é que esse número fique em US$ 23 bilhões neste ano. No ano que vem, a previsão é de déficit.
“Se o Brasil vai ter déficit ou saldo comercial em 2009 vai depender de medidas agressivas que o governo venha a tomar já. Há tempo para corrigir um eventual cenário ruim”, diz Segatto. “Não é possível o país exportar produtos semi-elaborados, como ferro, e importar produtos acabados de ferro. É preciso rever a política industrial no sentido de agregar valor aos produtos brasileiros”

Economia chinesa tem problemas (entrevista com Pettis)

Professor americano vê desaceleração econômica e pessimismo do consumidor. Professor da Universidade de Pequim diz que desmoronamento do mercado de ações tem forte impacto psicológico no país.

“Há um ano, quando eu era o único pessimista com o rumo da China, chamavam-me para balancear debates em que todos eram otimistas. Agora já tenho vários colegas no pessimismo”, diz o economista norte-americano Michael Pettis, professor de finanças da Universidade de Pequim. Pettis, que mora há seis anos no país, acha que a China demorou para apreciar sua moeda, o yuan, e enfrenta vários problemas ao mesmo tempo: desaceleração da economia, das exportações e da compra de imóveis, inflação e pessimismo do consumidor.
Leia os principais trechos da entrevista que ele deu à Folha.

FOLHA – A medida anunciada ontem -de reduzir o imposto cobrado na compra de ações- pode voltar a estimular os mercados na China?
PETTIS – Não haverá um forte impacto porque o mercado de ações tem ainda um peso muito pequeno no PIB chinês, mas ver o mercado desmoronar tão rápido tem um efeito psicológico. Mais importante é o mercado imobiliário. Consumidores, bancos e grandes empresas investiram pesadamente em imóveis, muito mais que em ações, e os preços em queda vão afetar toda a economia.
FOLHA – Fala-se de um pacote bilionário de investimentos em infra-estrutura para estimular a economia. É suficiente?
PETTIS – Nenhum investimento é feito em uma semana. Mesmo que sejam US$ 50 bilhões, US$ 100 bilhões, leva tempo para que sejam implementados e pode demorar dois anos para ter algum efeito prático.
FOLHA – O consumo interno pode compensar a desaceleração das importações e da construção civil?
PETTIS – O consumo na China é muito baixo. Enquanto nos EUA responde por 70% do PIB, em diversos países são 60%, aqui são 30%, 35%. O consumidor chinês é conservador, economiza muito. Como não há aposentadorias nem sistema de saúde gratuito, todos vivem economizando. Já vi cenas horríveis, como o paciente que ficaria salvo com seis dias a mais de tratamento deixar o hospital para a morte por não ter como pagar.
FOLHA – Os investimentos têm mais peso que o consumo interno no PIB. Pode faltar dinheiro nesse clima pessimista?
PETTIS – Não há falta de dinheiro na China para investimentos. Mas, se as exportações não crescem, os empresários não pensarão em produzir mais.
Mesmo que tenham acesso a crédito, se as imobiliárias não conseguirem vender apartamentos, não irão construir mais. Existir dinheiro não basta. O Japão chegou a oferecer empréstimos a taxa zero e ninguém queria pegar.
FOLHA – A redução na taxa de juros e nos depósitos bancários para empréstimos pode ajudar pelo menos a recuperar o mercado imobiliário?
PETTIS – Vai ter impacto pequeno. Um círculo virtuoso pode facilmente se tornar um círculo vicioso.
Os preços do metro quadrado cresciam sem parar e ainda assim as pessoas compravam porque esperar um mês significava comprar o mesmo apartamento bem mais caro. Agora, diante desse mercado mais pessimista, os futuros compradores estão esperando para ver, vêem que os preços estão em baixa, aguardam mais para ver até quanto podem baixar.
FOLHA – O governo chinês tem reservas de US$ 2 trilhões e os maiores bancos são estatais. Ele tem margem muito maior para fugir da crise?
PETTIS – O governo está preocupado desde o ano passado. O premiê Wen Jiabao falou que 2008 seria um ano muito difícil e não estava brincando. Exportações, consumo e investimentos estão se desacelerando. E a inflação ainda é um problema. Ainda que os preços ao consumidor tenham declinado nos últimos meses, a inflação dos preços ao produtor, de matérias-primas e importações, ainda está muito alta.
O risco é que eles afrouxem as condições monetárias para estimular a demanda e o investimento, mas, em vez de produzir isso, meramente causem o aumento de preços.
FOLHA – Ao comprar US$ 400 bilhões em títulos de Freddie Mac e Fannie Mae, a China apostou demais na mesma ficha? O país pode deixar de investir tanto nos EUA?
PETTIS – Não há outra saída para a China investir seu capital de exportações, com tantos superávits na balança comercial. O yuan é subvalorizado. Se o banco central não comprar dólares, vai comprar euros. É muito barato para as empresas estrangeiras comprarem aqui, mas é caro para as chinesas investirem no exterior.
FOLHA – Teme-se um crescimento de “apenas” 8% no PIB já no ano que vem. É mesmo grave?
PETTIS – Se a economia crescer menos de 10%, a China não produzirá os empregos necessários para milhões de pessoas todos os anos. O país está mudando rapidamente e em quatro ou cinco anos haverá menos jovens, por causa da política do filho único, mas o êxodo rural continuará, milhões de pessoas continuarão a buscar empregos nas cidades.
Nos EUA, se houvesse um crescimento de 10% do PIB, faltaria gente para os empregos, o país teria de importar mão-de-obra. A China precisa disso