A ata da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) evidencia as divergências entre os membros do Comitê que levaram a decisão não unânime. De um lado estão os três que enxergam o arrefecimento das pressões inflacionárias e desaceleração do crescimento econômico. Do outro os cinco que acham que as pressões inflacionárias ainda não se disciparam o suficiente. No último dia dez o Copom decidiu elevar a taxa Selic para 13,75% ao ano, sem viés, por cinco votos a favor e três pela elevação da taxa Selic em 0,5 ponto porcentual. De acordo com o documento, Copom considera que a persistência de descompasso importante entre o ritmo de expansão da demanda e da oferta agregadas continua representando risco para a dinâmica inflacionária. “A política monetária deve continuar atuando enquanto o balanço dos riscos para a dinâmica inflacionária assim o requerer, por meio do ajuste da taxa básica de juros, para, por um lado, reduzir tal descompasso e, por outro, evitar que pressões originalmente isoladas sobre os índices de preços levem à deterioração persistente das expectativas e do cenário prospectivo para a inflação”, diz o texto. A ata segue afirmando que parte do Comitê avalia que, desde a última reunião, acumularam-se sinais de acentuada deterioração da atividade nas economias centrais, acarretando certa melhora nas perspectivas inflacionárias globais, em parte em função da queda dos preços de commodities. Esse cenário teria possíveis impactos contracionistas, inclusive por meio dos desdobramentos da desalavancagem financeira sobre as condições creditícias, que se somariam aos efeitos defasados da política monetária sobre a atividade econômica no país, com implicações para o cenário inflacionário prospectivo. Essa é a opinião dos três membros do Comitê que optaram pela elevação dos juros em 0,5 ponto. A maioria, porém, considera neste momento que, em que pese a deterioração das perspectivas para o crescimento econômico mundial, os riscos para a materialização de um cenário inflacionário benigno no país não apresentaram ainda melhora suficientemente convincente. “Esses membros do comitê avaliam que não se acumularam até o momento sinais consistentes de redução do descompasso entre o ritmo de expansão da demanda e da oferta, como evidencia o uso intenso dos fatores produtivos, e que a ancoragem das expectativas à trajetória de metas precisaria ser reforçada”, reforça o documento. O documento afirma ainda que a despeito da desaceleração da economia mundial, consequencia da crise nos mercados internacionais, o Comitê acredita, com as informações disponíveis até o momento, que o balanço de pagamentos não deve apresentar risco significativo para o cenário inflacionário. “Em linhas gerais, a influência do cenário externo sobre a trajetória prospectiva da inflação brasileira continua sujeita a efeitos contraditórios e envolta em considerável incerteza”, afirma o texto. Por um lado, a perspectiva, que está aparentemente se consolidando, de desaceleração mais generalizada da atividade ao longo dos próximos meses, aponta para uma acomodação tanto dos preços de commodities quanto da demanda externa, podendo também influenciar as condições financeiras locais. Por outro lado, essa tendência de desaquecimento tem ocasionado aumento da aversão ao risco, afetando a demanda por ativos brasileiros e ocasionando depreciação de seus preços. “Nesse cenário, pode ocorrer redução adicional das exportações líquidas, com efeito similar sobre o comportamento dos preços de certos ativos brasileiros. Note-se, também, que a trajetória dos índices de preços ainda evidencia a presença de descompassos entre o crescimento da oferta e da demanda, e, conseqüentemente, de riscos inflacionários significativos, em diversas economias, mesmo que com intensidade possivelmente menor do que em meados do ano. Diante da deterioração ocorrida nos últimos meses nas perspectivas para a inflação, em ambiente de maior incerteza, o Comitê avalia que o risco de materialização de um cenário inflacionário menos benigno segue elevado”, aponta o documento. O Copom considerou ainda que embora haja certo arrefecimento nos preços, o aquecimento da demanda doméstica pode desencadear pressões inflacionárias mais intensas no setor de não transacionáveis, por exemplo, nos preços dos serviços. Assim, o Banco Central “irá acompanhar atentamente a evolução da inflação e das diferentes medidas do seu núcleo, assim como das expectativas de inflação dentro do horizonte de projeção, estando pronto a ajustar a postura de política monetária de forma a evitar a consolidação de um cenário no qual reajustes pontuais se transformem em reajustes persistentes ou generalizados de preços”. O Copom avalia ainda que mesmo mais diante de uma perspectiva de desaquecimento do crédito, ao longo dos próximos meses sua expansão, ainda que moderada, ocasionada pela elevação dos custos de captação, e a expansão da massa salarial real devem continuar impulsionando a atividade econômica. A esses fatores de sustentação da demanda devem ser acrescidos os efeitos das transferências governamentais esperadas para este e para os próximos trimestres. Essas considerações se tornam ainda mais relevantes quando se levam em conta os nítidos sinais de demanda doméstica aquecida, a disseminação de pressões derivadas de ajustes de preços relativos, inclusive sobre o mercado de trabalho, e o fato de que as decisões de política monetária terão impactos concentrados em 2009. Por fim os membros do Copom reforçaram que a persistência de uma atuação cautelosa e tempestiva da política monetária tem sido fundamental para aumentar a probabilidade de que, mesmo diante de pressões inflacionárias em escala global, a inflação no Brasil volte a evoluir segundo a trajetória de metas já em 2009.