Ações tentam barrar fusão Oi – Brt

Sindicatos de telefônicos de vários estados preparam um arrastão judicial para questionar a venda da Brasil Telecom para a Oi. O movimento foi articulado pela Fittel (Federação Interestadual dos Trabalhadores em Telecomunicações) em reunião realizada há duas semanas em Brasília. As informações são da repórter Elvira Lobato, da sucursal do Rio, em matéria na edição de hoje do jornal Folha de S. Paulo. O Sinttel do Rio Grande do Sul foi o primeiro com uma representação no Ministério Público Federal, alegando que a união das duas teles criará um monopólio privado, o que dificultaria ao poder público garantir o acesso às telecomunicações, a tarifas e preços razoáveis, e a competição no mercado. O procurador da República José Osmar Pumes, de Porto Alegre, abriu inquérito civil público para apurar o impacto do negócio sobre a competição no mercado e levantou uma suposta ilegalidade nos contratos da BrT, Oi e o banco Credit Suisse.O Sinttel da Paraíba também entrou com representação no Ministério Público Federal, em João Pessoa e pelo menos mais três sindicatos (Acre, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal) prevêm entrar com ações semelhantes até amanhã. De acordo com o texto, Brasil Telecom, Oi e Anatel não quiseram comentar a iniciativa dos sindicatos nem a ação na Justiça em Fortaleza.

Fator mantem recomendação para Ambev AMBV4

O banco Fator reiterou a recomendação de compra para as ações preferenciais da companhia de bebidas AmBev (AMBV4). O preço-alvo sugerido pela empresa é de R$ 192,91, com um potencial de ganho de 96,92% com relação ao fechamento de ontem (R$ 97,96). De acordo com o banco, em relatório divulgado ao mercado, o ganho de participação de mercado da empresa no País a AmBev elevou em 0,6 ponto percentual a sua fatia de mercado, passando de 66,7% em julho para 67,3% em agosto foi significativo para a empresa. “Entretanto acreditamos que faça parte da própria dinâmica do mercado ao longo do ano. Entendemos que existam fatores críticos na análise da companhia, inclusive de curto prazo, mais importantes que o monitoramento do market share em nível nacional. Julho e agosto foram os primeiros meses completos em que as empresas atuaram sob efeito da ‘Lei Seca’, em vigor desde 20 de junho, e seus efeitos sobre o volume de vendas no terceiro trimestre ainda são incertos”, afirma o Fator. O banco também disse que o domínio do mercado confere à companhia enorme competitividade e poder de precificação à Ambev nos diferentes segmentos em que atua. “Tais diferenciais serão essenciais na implementação da estratégia de preços em face do aumento de IPI previsto para 2009, e poderão inclusive proporcionar aumento de participação de mercado para a companhia”, completou o banco.

Credit Suisse recomenda Pão de Açucar PCAR4

O banco Credit Suisse reiterou a recomendação “outperform” para as ações preferenciais do grupo Pão de Açúcar (PCAR4) a preço-alvo de R$ 51,50 para o final de 2008. O que implica um potencial de valorização de 51,51% com relação ao fechamento de ontem (R$ 33,99). A recomendação “outperform”, para o banco, é de que o retorno esperado para as ações exceda em, pelo menos, 10% a 15% o projetado para o mercado em 12 meses. A avaliação do banco se baseou no desempenho das vendas da empresa no mês de agosto, divulgado pelo grupo no final da tarde de ontem. “Nós esperamos que o mercado reaja positivamente a esses números. Por outro lado, não acreditamos numa relevante apreciação dos preços dos papéis da empresa no segundo semestre. Mas depois destes números de agosto, reiteramos a nossa avaliação para os papéis da empresa, incentivando os investidores a investir nestas ações que têm característica defensiva entre as demais do setor”, afirmou o banco, em relatório.

Rejuste de minério deteriora relação da Vale com chineses

A negociação para um novo reajuste no preço do minério de ferro deteriorou o bom relacionamento da Vale com seus clientes chineses, segundo avaliação da equipe de analistas da Link Investimentos. Na semana passada, a Associação do Aço e do Minério de Ferro da China pediu que a Vale encerre as tentativas de aumentar seus preços no mercado asiático e classificou como irracional a proposta da mineradora brasileira. Contudo, segundo os analistas da Link, a iniciativa da Vale reflete mais uma pressão para aumentos no valor do minério de ferro em 2009. “Caso o reajuste não seja implementado ainda neste ano, não é possível esperar menos que os 20% que a Vale está tentando aplicar neste momento”, projeta a Link para as negociações do próximo ano. A corretora mantém a recomendação para a compra de ações da Vale. Os analistas acreditam que, mais do que um problema de demanda, a formação de grandes estoques de minério de ferro na China está relacionada aos Jogos Olímpicos de Pequim, que provocaram o fechamento temporário de algumas siderúrgicas. “Agora a produção está voltando ao seu normal”, diz relatório da equipe de análises da corretora.

Moodys eleva ratings da Cesp

A agência de classificação de risco Moodys melhorou o rating da Cesp, que passou de Ba3 para Ba2. Segundo a agência, a perspectiva é estável diante das análises iniciadas em março deste ano para a companhia. O rating Ba2 reflete, segundo a Moodys, que a Cesp continua tendo foco na busca por um balanço e por um fluxo de caixa mais fortes. A agência destaca a melhoria no perfil das dívidas da estatal e ressalta que não se deve esperar a retomada do processo de privatização da estatal paulista até o final do ano.

Petrobrás revisa preç mínimo para viabilidade do pré-sal

O gerente executivo de exploração e produção do pré-sal da Petrobras, José Formigli, admitiu hoje que a empresa está revisando para cima o preço mínimo do barril de petróleo necessário para garantir a viabilidade comercial dos campos. Segundo ele, com o aumento nos custos da cadeia de óleo e gás, a empresa já não trabalha com os US$ 35 por barril, o chamado preço de robustez. O patamar revisado, entretanto, só será anunciado pela estatal no novo plano estratégico, previsto para o início de outubro. Durante a Rio Oil & Gas, o gerente disse que há uma boa margem, mesmo com a recente queda do preço do petróleo. “Se acreditarmos que o preço do petróleo não vai continuar caindo a US$ 5 por dia, temos muita margem ainda. Hoje nas condições de aprovação estamos tranqüilos”

Dólar pode ir a 2 reais até o fim do ano

Valorização pode trazer alívio para exportadores de manufaturados, mas nas commodities as perdas continuam
O dólar poderá atingir R$ 2 dentro de três meses e dar alívio aos exportadores de produtos manufaturados que, nos últimos tempos, estão sendo afetados pela forte valorização do real em relação à moeda americana, prevê o diretor de Relações Internacionais e de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Roberto Giannetti da Fonseca. Ontem, o dólar encerrou o dia em alta de 0,33%, cotado a R$ 1,82.

Já para os exportadores de commodities agrícolas e metálicas, nem mesmo a valorização do câmbio deve atenuar as perdas porque os preços em dólar dessas matérias-primas estão caindo no mercado internacional em razão da desaceleração da economia mundial. “No caso dos exportadores de commodities, é como trocar seis por meia dúzia”, afirma Giannetti da Fonseca, fazendo referência aos ganhos proporcionados pela valorização do câmbio e às perdas provocadas pelos preços em dólar dos grãos e dos minérios.

Segundo ele, ainda é muito cedo para dizer que a recente recuperação do dólar se trata de uma tendência. “O mercado está muito volátil”, diz o diretor da Fiesp. Ele observa que a percepção de risco aumentou e os investidores estão resgatando hoje investimentos feitos no Brasil para cobrir prejuízos lá fora. Esse movimento, na sua opinião, deverá aumentar nas próximas semanas. “Há uma pressão clara para que o capital retorne aos países de origem.

É exatamente essa saída de capital financeiro que deve provocar a valorização crescente do dólar em relação ao real, levando a moeda americana para perto de R$ 2, segundo as suas previsões.

INVERSÃO

De toda forma, Giannetti da Fonseca pondera que esse cenário poderá se inverter. Analistas, por exemplo, não mexeram nas previsões de que o dólar encerre o ano cotado em R$ 1,65. O vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, é outro especialista que também considera a possibilidade de inversão do cenário atual.

Passadas as turbulências, Castro acredita que o Brasil pode voltar a atrair investimentos estrangeiros no mercado financeiro porque o País tem uma taxa básica de juros alta, hoje em 13,75% ao ano, e é tido no cenário internacional como um porto seguro para as aplicações financeiras. “Temos segurança de pelo menos um ano”, afirma o vice-presidente da AEB, levando em conta os US$ 205 bilhões de reservas cambiais disponíveis atualmente.

Para Castro, o recente movimento de recuperação do câmbio “melhora um pouquinho” a situação dos exportadores, que um mês atrás fechavam contratos com o dólar em R$ 1,56, a menor cotação dos últimos tempos. “Mas essa recuperação não soluciona o problema”, diz.Ele não descarta a possibilidade de o dólar chegar a R$ 2, porém dúvida de que esse movimento seja sustentável. “A recuperação do câmbio ocorre por causa de fatores externos”

Fundos de investimentos tiveram saques de 4,7 bilhões em setembro no Brasil

O mercado de fundos de investimento registra em setembro mais um mês de saques expressivos. Com a piora da crise nesta semana -apesar de a Bolsa de Valores ter escapado da queda ontem-, uma reversão desse movimento pode estar ainda bem distante.
A saída líquida de recursos dos fundos neste mês, até o dia 11, alcançou os R$ 4,7 bilhões. Profissionais do mercado financeiro estimam que essa saída tenha se aprofundado na segunda-feira, quando a Bovespa teve seu pior pregão em sete anos.
Os saques líquidos em todo o mercado de fundos alcançam os R$ 25 bilhões em 2008, de acordo com informações da Anbid (Associação Nacional dos Bancos de Investimento). Este é o primeiro ano em que os fundos sofrem saques desde 2002.
Um dos principais destinos dos recursos que têm abandonado os fundos de investimento são os CDBs (Certificados de Depósito Bancário), que vêm pagando juros mais elevados nos últimos meses.
Com as maiores dificuldades enfrentadas pelos bancos para captarem recursos, as taxas dos CDBs devem se manter em patamares altos. As instituições financeiras precisam captar recursos para ter dinheiro para emprestar, especialmente neste momento de expansão do crédito. Uma das formas de as instituições fazerem isso é emitindo CDBs, que seus clientes adquirem e recebem uma taxa de juros em troca.
“Nesse momento de crise, as aplicações que pagam juros são as que dão menos dor de cabeça para os investidores. No segmento, os CDBs e os fundos DI aparecem como destaque”, afirma o administrador de investimentos Fábio Colombo. “Por enquanto, as taxas dos CDBs tendem a seguir elevadas”, diz Colombo.
Com a queda de 22,94% que a Bolsa de Valores de São Paulo acumula neste ano, é difícil encontrar um fundo de ações que não esteja no vermelho. O mesmo ocorre com os fundos multimercados -que podem aplicar em diferentes segmentos, como papéis que rendem juros, ações e câmbio.
Aproximadamente 72% dos multimercados carregam ações em suas carteiras. Dessa forma, a categoria tem sentido a depreciação da Bolsa. Os multimercados são a categoria que mais perdeu recursos em 2008: R$ 33,28 bilhões.

GANHOS COM JUROS
O retorno médio dos CDBs em 2008 é de 8,4%. Os fundos de renda fixa pagam cerca de 8,5%, e os DI, 8%. Um ponto que tem favorecido os CDBs é o fato de a aplicação não cobrar taxa de administração, que acaba por corroer uma parcela da rentabilidade dos fundos. A taxa de administração cobrada normalmente oscila entre 1% e 4% ao ano.
Patrícia Branco, sócia-gestora da Global Equity, avalia que o mercado acionário segue arriscado no curto prazo. Mas, para o investidor que pensa em prazos maiores, ao menos em 12 meses, as ações podem começar a ser encaradas como uma opção.
“Mas temos de considerar que os juros estão muito elevados e vão subir ainda mais um pouco”, afirma

Governo monitora pontos frágeis da economia nacional

O acirramento da volatilidade dos mercados mundiais reforça a preservação da política econômica e os instrumentos de política monetária, segundo uma fonte com acesso às discussões dentro do governo. A avaliação é que, embora nenhum país esteja 100% imune à turbulência, o trabalho feito nos últimos anos tornou o Brasil menos vulnerável às crises que contaminaram o segundo mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Enquanto se aguardam os desdobramentos nos EUA, a análise para identificar os impactos na economia doméstica considera alguns fatores.

Crédito – A oferta global já está passando por restrição. Há menor disponibilidade em todo o mundo, que resultou em um aumento do custo de captação e redução dos prazos.

Crédito interno – O sistema financeiro passa por um processo de “desalavancagem”. Os bancos terão menor capacidade para emprestar.

Câmbio – A saída dos investidores da Bovespa para cobrir prejuízos no exterior pode aumentar a desvalorização do real. Isso, por outro lado, deve atenuar as remessas. O câmbio flutuante se ajusta.

Desaceleração – Uma forte desaceleração das economias mundiais poderá provocar queda maior do preço das commodities, o que afetaria a balança comercial

Para ONU crise é a maior em 70 anos

Impacto para países emergentes também deverá ser maior, diz secretário.
A Organização das Nações Unidas (ONU) avalia que a atual crise pode ser a pior dos últimos 70 anos no setor financeiro e o impacto sobre os países emergentes deverá ser maior do que se esperava.

“Podemos estar vivendo a pior crise em décadas, segundo as projeções que estamos fazendo internamente. Não sabemos de nada parecido desde 1929. E o pior é que temos de reconhecer que não estamos ainda no fim dela. Há quem diga que não chegamos ainda no fim do poço”, afirma Supachai Panichpakdi, secretário-geral da Conferência da ONU para o Desenvolvimento e Comércio.

Ex-ministro das Finanças da Tailândia, ele diz que a atual crise é “muito maior que tudo o que se viu nos anos 90, inclusive a crise asiática”. Supachai viveu na pele as turbulências na Ásia em 1997.

“Naquele momento, mantivemos nossos mercados abertos e isso ajudou. O que vemos agora é um abalo bem maior”, ressalta. “Não se trata apenas de uma crise no mercado de créditos. Essa é uma crise financeira que terá impacto em vários setores, inclusive no comércio, que deverá decrescer de forma importante. Já não há mais dúvida de que a recessão de fato chegará para muitos países. Alguns hesitam em admitir, mas já estão tecnicamente em recessão.”

RECUPERAÇÃO

Já a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) prefere manter intocadas suas previsões de crescimento. Segundo o secretário-geral da entidade, Angel Gurria, o sistema financeiro internacional pode se recuperar a partir do segundo semestre de 2009 e, para 2010, é possível até prever um crescimento de 3% para os países ricos. “Precisamos de regulação do mercado. Já está provado que algo precisa ser feito.”

Uma das preocupações é que a crise comece a atingir o crescimento dos países emergentes, até agora relativamente isolados da turbulência surgida nos países ricos.

A Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), em números apresentados ontem à ONU, confirma uma desaceleração no crescimento latino-americano. Mas ainda indica que a taxa será mais elevada do que a média do crescimento histórico da região nos anos 80 e 90.

NÚMEROS
Em 2007, o aumento do PIB foi de 5,7%. Neste ano, a taxa deve ser de 4,7%. Para 2009, 4%. Será o sétimo ano consecutivo de crescimento para a região, segundo a Cepal.

Para a entidade, a América Latina terá de apresentar uma taxa de crescimento de pelo menos 4% ao ano para conseguir reduzir a pobreza pela metade até 2015. “Todas as previsões terão de ser refeitas nos próximos meses”, afirma Supachai

China e emergentes crescerão menos

As atuais turbulências no mercado internacional devem fazer com que a economia da China cresça menos neste ano, o que desaceleraria também as economias emergentes como a do Brasil, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil.
Segundo eles, o crescimento econômico chinês pode ficar pela primeira vez bem abaixo dos dois dígitos.
Como a China é hoje um grande investidor e comprador de produtos da América Latina – em especial do Brasil –, o efeito da desaceleração chinesa faria com que a região sentisse com ainda mais força a crise econômica global.
As economias de países ricos, como Estados Unidos e Europa, vêm sofrendo desaceleração desde o ano passado, devido a uma crise no mercado imobiliário americano.
O anúncio do pedido de concordata nesta semana do Lehman Brothers, um dos grandes bancos americanos, provocou quedas nas bolsas de todo o mundo. Teme-se agora que a crise no mercado financeiro agrave ainda mais a situação das economias de vários países.
ABAIXO DE DOIS DÍGITOS
“Por causa do desaquecimento global, as exportações da China para os países mais ricos vão cair. O crescimento pode ficar bem abaixo dos dois dígitos pela primeira vez em anos”, afirmou ela à BBC Brasil a professora de economia Linda Yueh, da London School of Economics. Nos últimos dois anos, a China cresceu mais de 11%.
Na segunda-feira, a China cortou a taxa de juros oficial do país pela primeira vez em seis anos, de 7,41% para 7,2%. Segundo Yueh, esse corte mostra que já existem sinais de que o crescimento industrial da China está se desacelerando.
Para ela, em uma época de crise nos Estados Unidos e Europa, a China não tem condições de substituir o Ocidente como motor de crescimento global.
“A China não tem o mesmo nível de renda dos Estados Unidos e Europa Ocidental e não dá acesso livre a outros países. Então ela não conseguiria substituir o Ocidente como grande pólo consumidor do mundo.”
O risco maior para a China seria de uma grande recessão americana e européia, que geraria um alto desemprego no setor exportador chinês.
”RECOLAMENTO”
Para o estrategista internacional de mercado de ações da agência de classificação de risco Standard & Poor’s, Alec Young, a economia chinesa vai se desaquecer neste ano, mas não com muita intensidade.
“A grande questão é saber se isso é só o começo de um processo ou se vai durar nos próximos anos”, afirma.
Tanto Young como Yueh são contra a tese de que as economias emergentes estão “descoladas” dos países ricos – cenário no qual a atual crise nos Estados Unidos e Europa não afetaria o crescimento de Brasil e China.
“Muito pelo contrário. O que está acontecendo, na minha opinião, é um ‘recolamento’ das economias emergentes aos países ricos. Os emergentes estão sentindo cada vez mais os efeitos da turbulência global”, diz Young.
Analistas da Merrill Lynch também não acreditam que a economia da China terá um desaquecimento brusco.
Para eles, o efeito da Olimpíada de Pequim pode ajudar a manter o crescimento do país no patamar dos 9% e 10% neste ano

Inflação exportada pelos EUA via dólares é a causa das bolhas financeiras

Erro foi tratar o estouro das hipotecas com intervenções cirúrgicas, não como crise sistêmica
Com o mercado interbancário virtualmente trancado há um ano e a suspeita marcando ponto nas esquinas de Wall Street, era questão de tempo que a desdita do sistema financeiro dos EUA virasse uma chacina. A metástase da banca exige mais que medidas de almanaque, como os socorros pontuais do Federal Reserve, ou mesmo dramáticas, mas isoladas, o caso da estatização orquestrada pelo Tesouro dos gigantes do refinanciamento de hipotecas Fannie Mae e Freddie Mac.

O erro foi tratar o estouro da bolha do mercado hipotecário entre julho e agosto do ano passado com intervenções cirúrgicas em apoio a bancos em apuros, não como crise sistêmica contratada há mais de trinta anos. O Fed, do professor Ben Bernanke, e a Secretaria do Tesouro, do financista Hank Paulson, responderam com tratamento de microeconomia a doença de fundamento macroeconômico dos EUA.

Uma sociedade viciada em dívidas contraídas para consumir mais do que ela produz e roladas com um dinheiro não obtido com trabalho e produção está condenada à exaustão. A normalidade é só aparente – e funciona apenas enquanto a ciranda financeira não pára. A mãe de todas as bolhas é a inflação exportada pelos dólares vagabundos.

O sistema financeiro dos EUA é a outra face da miséria do dólar, que expressa deformidades macroeconômica antigas, resultantes dos déficits orçamentários e das contas externas bancados, primeiro, com emissão de moeda e ativos financeiros lastreados no início na economia real. Assim foi dos anos 70, quando os EUA romperam com a equivalência do dólar ao ouro, ao fim da década de 80.

Depois, quando a liquidez monetária perdeu relação racional com a produção econômica, começam a surgir as bolhas de especulação, e a todas se seguiu um final traumático. A das ações terminou em 1987 com o crash da Bolsa de Nova York. Num único dia, 19 de outubro, o índice Dow Jones desabou 22%, depois de uma semana em que já caíra 9,5%, a pior desde a invasão da França pela Alemanha, em 1940.

As bolhas se sucedem em intervalos de três a quatro anos. Teve a das saving and loans, quando mais de três mil bancos de poupança faliram. O evento foi precursor da atual débâcle das hipotecas.

O traço comum a tais crises foi, sempre, não a falta de controle, mas o verdadeiro incentivo dos sucessivos governos americanos para que a banca encontrasse meios de dar lógica à montanha de dívidas públicas e privadas. O meio de financiar os déficits sem inflação.

CONIVÊNCIA ACADÊMICA

Os financistas foram ficando inventivos. Eles tiveram a simpática adesão da academia para criar fundamentos supostamente racionais à “exuberância irracional”, expressão cunhada pelo ex-presidente do Fed Alan Greenspan, que, no entanto, foi o grande patrono de toda insensatez ao derrubar os juros nos EUA para 1% ao ano. Depois, se calou diante do corte de impostos no início do governo Bush.

Com tal pano de fundo, veio a maior de todas as ilusões, a tal da “nova economia”, o “estelionato consentido” que gerou empresas com zero de receita avaliadas em bilhões de dólares. As tais dot.com, firmas de internet que marcavam ponto na bolsa eletrônica Nasdaq.

O SHOW DE WALL STREET

A fraude das dot.com acabou em 2001. Saiu de cena quando entrava em cartaz o vodu dos derivativos. O show de Wall Street, isto é, do dólar, não podia parar. Os derivativos são operações válidas ao permitir antecipar receita real convertida em ativo financeiro.

A tal securitização foi corrompida por matemáticos a soldo da banca, que criaram títulos inspirados na lógica de seitas exotéricas, não há como pensar outra coisa, tamanha sua complexidade. Tais papéis, chamados de tóxicos, hoje corroem os bancos mais que as hipotecas.

APOGEU DAS MALDADES

A bolha das hipotecas e os derivativos de crédito foram o apogeu das perversidades financeiras de um mercado que, à primeira vista, estava alinhado com o propósito do aparato monetário formal do Fed e Tesouro, voltado a justificar os déficits gêmeos do país, sem a seqüela da monetização das emissões. Em última instância, trata-se de girar a economia acima do potencial, sem descambar em inflação.

Esse é o nó nos EUA. O resto são seqüelas. Como o colapso de um banco com 158 anos, o Lehman Brothers, a venda forçada do Merrill Lynch para o Bank of America e a corrida da AIG, maior seguradora dos EUA, atrás de US$ 40 bilhões para não quebrar. O problema dos EUA é fiscal e de solvência, com Wall Street no olho do furacão.

REDES DE CUMPLICIDADE

Um sistema assim se serve e é servido pelas redes de cumplicidade entre o banco central e a teia financeira institucional. Ela gerou arranjos infernais, viabilizados pela leniência das autoridades de controle. Como no Brasil dos anos 80, quando começou a se trocar o financiamento inflacionário do Tesouro por títulos de dívida então negociados no que se chamava de open market, mercado aberto.

Tanto pela inexperiência como pelo volume de financiamento exigido pelo governo e, sobretudo, a expectativa de altos ganhos, muitos bancos se entupiram de papéis e foram à lona, quase uma centena em quinze anos. Vários por má fé. Como agora nos EUA.

O rabo parou de abanar o cachorro quando se fez o ajuste fiscal. É o que resta aos EUA