Erro foi tratar o estouro das hipotecas com intervenções cirúrgicas, não como crise sistêmica
Com o mercado interbancário virtualmente trancado há um ano e a suspeita marcando ponto nas esquinas de Wall Street, era questão de tempo que a desdita do sistema financeiro dos EUA virasse uma chacina. A metástase da banca exige mais que medidas de almanaque, como os socorros pontuais do Federal Reserve, ou mesmo dramáticas, mas isoladas, o caso da estatização orquestrada pelo Tesouro dos gigantes do refinanciamento de hipotecas Fannie Mae e Freddie Mac.
O erro foi tratar o estouro da bolha do mercado hipotecário entre julho e agosto do ano passado com intervenções cirúrgicas em apoio a bancos em apuros, não como crise sistêmica contratada há mais de trinta anos. O Fed, do professor Ben Bernanke, e a Secretaria do Tesouro, do financista Hank Paulson, responderam com tratamento de microeconomia a doença de fundamento macroeconômico dos EUA.
Uma sociedade viciada em dívidas contraídas para consumir mais do que ela produz e roladas com um dinheiro não obtido com trabalho e produção está condenada à exaustão. A normalidade é só aparente – e funciona apenas enquanto a ciranda financeira não pára. A mãe de todas as bolhas é a inflação exportada pelos dólares vagabundos.
O sistema financeiro dos EUA é a outra face da miséria do dólar, que expressa deformidades macroeconômica antigas, resultantes dos déficits orçamentários e das contas externas bancados, primeiro, com emissão de moeda e ativos financeiros lastreados no início na economia real. Assim foi dos anos 70, quando os EUA romperam com a equivalência do dólar ao ouro, ao fim da década de 80.
Depois, quando a liquidez monetária perdeu relação racional com a produção econômica, começam a surgir as bolhas de especulação, e a todas se seguiu um final traumático. A das ações terminou em 1987 com o crash da Bolsa de Nova York. Num único dia, 19 de outubro, o índice Dow Jones desabou 22%, depois de uma semana em que já caíra 9,5%, a pior desde a invasão da França pela Alemanha, em 1940.
As bolhas se sucedem em intervalos de três a quatro anos. Teve a das saving and loans, quando mais de três mil bancos de poupança faliram. O evento foi precursor da atual débâcle das hipotecas.
O traço comum a tais crises foi, sempre, não a falta de controle, mas o verdadeiro incentivo dos sucessivos governos americanos para que a banca encontrasse meios de dar lógica à montanha de dívidas públicas e privadas. O meio de financiar os déficits sem inflação.
CONIVÊNCIA ACADÊMICA
Os financistas foram ficando inventivos. Eles tiveram a simpática adesão da academia para criar fundamentos supostamente racionais à “exuberância irracional”, expressão cunhada pelo ex-presidente do Fed Alan Greenspan, que, no entanto, foi o grande patrono de toda insensatez ao derrubar os juros nos EUA para 1% ao ano. Depois, se calou diante do corte de impostos no início do governo Bush.
Com tal pano de fundo, veio a maior de todas as ilusões, a tal da “nova economia”, o “estelionato consentido” que gerou empresas com zero de receita avaliadas em bilhões de dólares. As tais dot.com, firmas de internet que marcavam ponto na bolsa eletrônica Nasdaq.
O SHOW DE WALL STREET
A fraude das dot.com acabou em 2001. Saiu de cena quando entrava em cartaz o vodu dos derivativos. O show de Wall Street, isto é, do dólar, não podia parar. Os derivativos são operações válidas ao permitir antecipar receita real convertida em ativo financeiro.
A tal securitização foi corrompida por matemáticos a soldo da banca, que criaram títulos inspirados na lógica de seitas exotéricas, não há como pensar outra coisa, tamanha sua complexidade. Tais papéis, chamados de tóxicos, hoje corroem os bancos mais que as hipotecas.
APOGEU DAS MALDADES
A bolha das hipotecas e os derivativos de crédito foram o apogeu das perversidades financeiras de um mercado que, à primeira vista, estava alinhado com o propósito do aparato monetário formal do Fed e Tesouro, voltado a justificar os déficits gêmeos do país, sem a seqüela da monetização das emissões. Em última instância, trata-se de girar a economia acima do potencial, sem descambar em inflação.
Esse é o nó nos EUA. O resto são seqüelas. Como o colapso de um banco com 158 anos, o Lehman Brothers, a venda forçada do Merrill Lynch para o Bank of America e a corrida da AIG, maior seguradora dos EUA, atrás de US$ 40 bilhões para não quebrar. O problema dos EUA é fiscal e de solvência, com Wall Street no olho do furacão.
REDES DE CUMPLICIDADE
Um sistema assim se serve e é servido pelas redes de cumplicidade entre o banco central e a teia financeira institucional. Ela gerou arranjos infernais, viabilizados pela leniência das autoridades de controle. Como no Brasil dos anos 80, quando começou a se trocar o financiamento inflacionário do Tesouro por títulos de dívida então negociados no que se chamava de open market, mercado aberto.
Tanto pela inexperiência como pelo volume de financiamento exigido pelo governo e, sobretudo, a expectativa de altos ganhos, muitos bancos se entupiram de papéis e foram à lona, quase uma centena em quinze anos. Vários por má fé. Como agora nos EUA.
O rabo parou de abanar o cachorro quando se fez o ajuste fiscal. É o que resta aos EUA