É difícil encontrar algum brasileiro que não sorria, mesmo que discretamente, ao assistir algum tropeço argentino – seja no futebol, na política ou na economia. No entanto, uma análise atenta da relação entre os vizinhos mostra que esta rivalidade só é realmente saudável quando dentro das quatro linhas. Fora dos gramados, ambos perdem quando um dos dois vai mal.
A instabilidade política e econômica da Argentina, inaugurada com Fernando de la Rua no poder, em 1999, e realimentada por Cristina Kirchner, afeta diretamente os negócios de empresas brasileiras. Na opinião de especialistas e empresários, os hermanos demonstram cada vez mais aversão ao livre mercado, ao mesmo tempo em que contaminam sua economia com medidas protecionistas.
O resultado é bem mais do que a corrosão de suas riquezas. É também um marco restritivo ao acesso de seus vizinhos a um mercado de 38 milhões de consumidores com um poder de compra relativamente elevado, mas que já foi muito maior.
Números mostram que a bancarrota da economia argentina puxa para baixo também o Brasil e, em especial, o Rio Grande do Sul, que, por sua localização geográfica e perfil de produção, sempre se beneficiou das relações comerciais com os vizinhos. O Estado, que já teve na Argentina o principal comprador de seus produtos, especialmente autopeças, calçados, tecidos e alimentos, agora vê suas vendas ao país despencarem. Dados da Federação das Indústrias do Estado (Fiergs) mostram que, no acumulado deste ano, as exportações para lá ficaram em US$ 900 milhões, ante US$ 1,38 bilhão nos primeiros meses do ano anterior.
No mesmo período, os embarques para a China, por exemplo, passaram de US$ 1,58 bilhão para US$ 2,5 bilhões. Agora, enquanto os asiáticos compram 17% das mercadorias gaúchas, a Argentina absorve 12,1%. “A relação comercial com a Argentina nunca foi muito fácil, mas hoje está extremamente complicada”, lamenta o presidente da Fiergs, Paulo Tigre.
Quando o Mercosul ganhou força, no final dos anos 1990, o Brasil surgiu como principal parceiro comercial da Argentina, consumindo um terço de suas exportações. Hoje, os brasileiros ainda são seus principais clientes estrangeiros, embora sua participação tenha caído para 24%.
Ainda assim, o bom momento que viveu a economia mundial até o ano passado favoreceu o crescimento do comércio entre ambos. Em 2008, o fluxo comercial chegou a US$ 30 bilhões, com saldo positivo de US$ 4,03 bilhões para o lado brasileiro, que exportou US$ 17,6 bilhões e importou US$ 13,2 bilhões. Os dados representam uma elevação sobre 2007, quando a corrente comercial somou US$ 24 bilhões, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio do Brasil.
No entanto, empresários de ambos países têm motivos de sobra para temer pelos alicerces da relação mútua. Há um ano, o governo argentino decidiu tornar não automáticas várias licenças de importação de produtos brasileiros, sob a alegação de proteção à indústria local. Mais de cem tipos de mercadorias passaram a pagar taxas convencionais e a enfrentar toda a burocracia tradicional para entrar na nação.
Automóveis, linha branca e itens de consumo diversos entraram no rol, e hoje esperam mais de 180 dias para ganharem acesso ao território vizinho. “Ao não dispor de uma agenda econômica clara, o governo argentino acaba adotando medidas que atendem a interesses específicos, mas prejudicam o comércio bilateral como um todo”, observa o advogado Marcino Fernandes Rodrigues Junior, especialista em Direito Internacional e Comércio Exterior, presidente da Câmara do Mercosul e diretor da Comissão de Relações Internacionais e Integração do Mercosul da Ordem dos Advogados do Brasil no Estado.
Com era previsível, o Brasil contra-atacou. Recentemente, peixes, geleias, doces, uvas passas e ameixas secas juntaram-se à farinha e pré-mistura de trigo, vinhos, alho, azeite, azeitonas e rações para animais na lista de produtos argentinos que perderam a licença automática para entrar no País. “É uma postura rígida do governo brasileiro para forçar a Argentina a voltar à mesa de negociações, e parece ser a principal saída neste momento”, observa Antônio Carlos Fraquelli, economista da Fundação de Economia e Estatística do Estado (FEE). Afora o desmanche econômico da Argentina, a seca que assola seu território também colabora para postergar uma possível retomada.
Potencial de negócios é pouco aproveitado
Paralelamente à imposição de barreiras, o governo da Argentina demonstra imperícia para cultivar sua agricultura e energizar a indústria nacional. Os argentinos dispõem de uma imensidão de riqueza natural não explorada. Suas grandes reservas de petróleo, minerais e carvão são, na opinião de técnicos, mal-exploradas e pesam muito pouco em sua pauta de exportações.
A Argentina embarca 314 mil barris de petróleo ao dia – quase metade do que o Brasil vende para fora. Basicamente, a indústria é concentrada em Buenos Aires, onde há polos calçadista, automobilístico e têxtil. No entanto, os industriários veem seus negócios atrofiarem diante do aumento das políticas protecionistas na região, uma vez que o mercado interno não vive seu período mais áureo.
A restrição de mercados e a falta de uma política clara ao setor produtivo são apontados como fatores que impedem a indústria de crescer ao mesmo ritmo da economia. No ano passado, mesmo com uma elevação de Produto Interno Bruto à beira dos dois dígitos, a produção das fábricas cresceu 4,3%, apenas o 61º melhor resultado mundial no setor, de acordo com dados do relatório The World Factbook, da Central Inteligence Agency (CIA).
Mesmo o agronegócio do país, outrora abundante para saciar os argentinos e exportar, tem sofrido golpes duros. No início deste ano, a presidente Cristina Kirchner sobretaxou o trigo exportado para segurar o preço do alimento no mercado interno e estancar os soluços inflacionários no setor de alimentos.
Houve grandes protestos dos produtores, tendo em vista que os embarques são sua principal fonte de receita. De quebra, a medida desagradou aos vizinhos de Mercosul – inclusive o Brasil, que importa 60% do trigo que consome e tem na Argentina o principal fornecedor. Com a escassez, o país viu o preço do grão disparar e foi obrigado a buscar outros mercados. “As atitudes radicais do governo da Cristina Kirchner tem pesado para o não desenvolvimento da economia do país – e isso não prejudica apenas a própria Argentina, assim como todos os países do Mercosul”, assinala o professor do curso de Economia da Pucrs, Alfredo Meneghetti Neto, que coloca como fundamental uma mudança de postura do país para que haja uma chance de retomada do bloco.
A pecuária argentina, que já foi propulsora de sua economia, ensaia passos de decadência. Os dados mais recentes da Federação Agrária Argentina (FAA) indicam que o rebanho do país deve recuar para apenas 47,9 milhões de cabeças na passagem deste ano para o próximo, 7,4 milhões a menos do que em 2008. Se isso ocorrer, o rebanho voltaria ao patamar da primeira parte da década de 1960.
Os números são atribuídos às secas e políticas equivocadas do governo: com o avanço da safra de grãos na nação, o gado está sendo deslocado para o Norte, área de custo maior e rentabilidade menor. Para piorar a situação, a alteração ameaça a qualidade da célebre carne dos rebanhos argentinos, o que fatalmente fechará mais portas no mercado externo nos próximos anos.
Dados da Argentina são imprevisíveis
Os números da Argentina são tão imprevisíveis quanto as trapalhadas de Diego Maradona. Seu PIB cresce desde 2004, quando inflou 8,7% após desabar 14,7% no ano anterior – o que fora a quarta queda seguida. Dados do Fundo Monetário Internacional apontam crescimento real na casa dos 9% no ano na última meia década, e as previsões são de 6,8% de elevação neste ano.
No entanto, a aparente prosperidade da economia vem acompanhada de uma inflação alarmante – dados oficiais do governo apontam para elevação média na casa dos 10% ao ano. Ou seja, boa parte da riqueza gerada é corroída pelos reajustes e impede que os benefícios cheguem mais intensamente aos pobres.
No entanto, fossem estes dados confiáveis, até poderiam ser consideradas normais para um país que busca recuperação – como mostra o caso de China e Índia. O problema é que o governo hermano é acusado por organismos internacionais e iniciativa privada de manipular os dados inflacionários para justificar suas aventuras econômicas.
Enquanto os dados oficiais apontam elevação de 8,6% no ano passado, pesquisas não oficiais colocam este número em 22%. “Esta disparidade atormenta os investidores, que, sem clara noção da situação do país, muitas vezes evitam de colocar por lá seu dinheiro”, observa Antônio Carlos Fraquelli, da FEE.
A falta de transparência poderá inclusive prejudicar a tomada de empréstimos por parte do governo argentino – manobra vista como inevitável para cobrir a dívida pública e promover uma reestruturação financeira. A ida ao FMI pode ocorrer muito em breve, acreditam economistas, mas pode também ser dificultada pelo calote dado no início da década.
Recuperação passa pelo Mercosul
Se há uma saída rápida viável para a reestabilização da economia argentina, esta pode estar no Mercosul, destino de 19% das exportações. A proximidade dos mercados, as tentativas de evolução do bloco econômico – apesar da controversa entrada da Venezuela -, e as propostas de utilizar moedas locais abrem as portas para uma nova frente de negociações entre os países.
“Os empresários de Brasil e Argentina nunca deixaram de estar interessados em fazer negócios, mas as interferências políticas têm atrapalhado cada vez mais esta relação”, comenta o advogado Marcino Fernandes Rodrigues Junior.
Outra boa notícia é que surge um aceno entre Brasil e Argentina para retomarem negociações quanto à derrubada das barreiras comerciais. Recentemente, o governo argentino solicitou uma reunião urgente entre os ministros de Produção, Débora Giorgi, e de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, para discutir as barreiras adotadas pelo Brasil contra alguns produtos da Argentina.
“Queremos que essa reunião seja realizada imediatamente, porque havia um encontro bilateral marcado para os dias 11 e 12 de novembro, mas foi cancelado”, reclamou uma fonte argentina à Agência Estado. “Não podemos esperar que o assunto seja discutido na cúpula (entre os presidentes Cristina Kirchner e Luiz Inácio Lula da Silva) do dia 18 de novembro”, em Brasília, completou.
Alheias às rivalidades políticas entre os países, algumas empresas brasileiras continuam colocando suas fichas na Argentina. Em agosto, a fabricante de máquinas e equipamentos agrícolas gaúcha Agrale iniciou a produção de caminhões em sua fábrica na cidade de Mercedes, a 90 quilômetros de Buenos Aires.
A unidade inaugurada no ano passado para a montagem de chassis de ônibus passou a produzir agora o modelo Agrale 7.500 RD. O objetivo da empresa é ampliar sua participação naquele mercado – o que mostra confiança na prosperidade do mercado interno. Instalada em uma área de 200 mil metros quadrados, a planta também poderá ser base exportadora para outros países.
RBS